PORTUGAL para iniciantes:


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Eu acreditei que Portugal era um país de fácil desvendar, de obviedade escancarada, especialmente para nós brasileiros, e para mim, nordestina, nascida e criada na primeira capital da grande colônia Brasil, do antigo e poderoso Império Português.

Fortíssimo engano! Portugal, diferente do país que habitava meu imaginário, é intrigante, difícil, complexa, possuidora de muitas camadas e inúmeras faces, escondidas, sobrepostas, enevoadas, protegidas. Não é fácil entender essa terra de onde partiram homens corajosos, navegadores que desbravaram o oceano e aqui, nesta terra Brasilis, vieram parar tantos séculos atrás.

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Por lá, conta-se a história de nosso descobrimento de maneira diferente da que ouvimos por aqui. Eles mostram intensa vergonha pela escravatura negra, por terem negociado vidas tão largamente, mas são extremamente condescendentes com a colonização, com a matança e escravização indígena, que muitas vezes nem sabem que existiu.

Os portugueses acreditam que nós tivemos muita sorte por terem sido eles a atracarem por aqui, uma vez que os espanhóis foram muito mais violentos e dizimaram populações nativas inteiras.

"A prova de que os portugueses, apesar da escravidão dos africanos, foram gentis", me disse um senhor em Sintra, "é a miscigenação do povo brasileiro. Os portugueses não são preconceituosos", afirmou ele, "talvez o único povo da Europa que não o seja".

Uma moça em Évora nos declarou algo parecido: "os portugueses não foram violentos como os espanhóis. Ao contrário, tentamos ser amáveis e gentis com as populações que habitavam o Brasil, catequizando os índios, por exemplo, ao invés de exterminá-los". Garantiu, entretanto que “o episódio da escravidão africana foi terrível e vergonhoso”.

Uma guia que contava a história portuguesa para um grupo de espanhóis alegou que a independência brasileira se deu como um ato de bondade do Rei Dom João VI diante da evidente vontade do povo brasileiro de ser uma nação livre. 

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Portugal me surpreendeu, me desafiou, me encantou, me irritou, me constrangeu, me desconstruiu, me despedaçou e por fim, me arrebatou. O país me proporcionou experiências muito peculiares.

Contrariando todas as minhas expectativas, eu fui fisgada no primeiro olhar, ali em Porto, saindo do metrô e me deparando com a Estação São Bento. Não imaginei que eu seria tão facilmente encantada por essas terras lusitanas.

A Portugal que eu vi e vivi, possivelmente foi só uma sombra, umas poucas nuances do país. Percebi, caminhando pelas ruas, conversando com as pessoas, visitando seus clássicos pontos turísticos, mergulhando na culinária, que o passado ainda é muito presente por lá. Quase como um entrave ou mesmo uma tábua de salvação.

Pareceu-me que o tempo pretérito é uma alavanca para resgatar a autoestima de dias de glória deste país que já dominou o mundo. Assim, eles ficam presos, amarrados. Toda e qualquer mudança, seja nas artes, na literatura ou mesmo na gastronomia é tímida, extremamente tímida. Pensei haver uma fidelidade muito grande ao passado e o rompimento seria como uma traição ou sacrilégio.

"Queríamos ser espanhóis", me disse uma moça em Lisboa, em uma loja cujos donos são artistas e buscam modernizar os símbolos do país, como o famoso galo. O que eu vi foi beleza, sem dúvida, mas atada aos grilhões do passado e a um complexo arraigado de inferioridade diante de outros países do continente.

“Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas,ciências, estilo, industrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssimo, com os direitos da alfândega, e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas...”; assim cantou Eça de Queiroz, através da personagem Ega, lá pelo século XIX em Os Maias.

Ela me contou que existe um movimento no país de resgate, de valorização da cultura local e de suas raízes. Falou-me que ela consegue perceber, por exemplo, mudanças significativas no fado, uma das maiores expressões da arte portuguesa: “o fado, que sempre foi considerado cafona – para usar uma expressão brasileira" – afirmou ela, "hoje começa a ser ouvida pela nova geração, sem nenhuma demonstração de vergonha”.

Perguntei a razão disso, o que havia mudado e ela me respondeu: “há uma nova geração de cantoras tatuadas”. Isso, segundo seus conceitos era um forte indício de modernização da música típica de Portugal.

No entanto, ninguém com quem conversei me disse que há inovações, introdução de novos elementos no fado, seja na letra ou na melodia, como aconteceu, por exemplo, com o samba brasileiro e o flamenco andaluz. Parece, em verdade, ter havido uma mudança na disposição dos portugueses em aceitar, de coração aberto, o que é verdadeiramente português e não valorizar tanto o estrangeirismo.

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Conversei com uma pós-graduada em Letras, em Porto, e perguntei a ela como andava a literatura portuguesa moderna: “têm surgido bons autores, alguns inclusive falando de assuntos que antes não eram explorados, feridas abertas de nossa história”. E autoras, perguntei. “Algumas, muito poucas, mas há sim”. 

Assim como já tinha escutado de outras pessoas em outras cidades, ela afirmou que foi obrigada, na escola e universidade a estudar tanto os autores clássicos portugueses, como Eça de Queiroz e José Saramago que não consegue nem mais ouvir, ou ler, nada sobre eles. 

O Nobel de Literatura no país divide opiniões. Somente uma moça saiu em defesa, ferrenha, de Saramago. Talvez, portanto, na literatura, haja uma atualização e uma estrada nova e fresca (sem desmerecer sua história) esteja sendo trilhada ainda que de maneira acanhada.

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Comemos, em cidades diferentes, pratos feitos por chefs de cozinha que prometiam uma gastronomia portuguesa contemporânea. Não consegui alcançar tal contemporaneidade, embora os sabores estivessem com certeza digno de nota. Toda a cozinha portuguesa é maravilhosa e antiga. Pareceu-me que mudou muito pouco ao longo dos anos e séculos, ou que tenha sofrido qualquer influência estrangeira.

A isso, curiosa, perguntei a uma garota, em um museu que visitamos em Lisboa: por que eu vejo tão pouca influencia externa na cultura portuguesa, se hoje há um movimento turístico de massa e muitos imigrantes vivendo por estes lados?

A percepção dela é que a vida no país é tão acolhedora, aconchegante e agradável que as pessoas que migram para o país, optam por despir-se de sua própria cultura para absorver a deles. Talvez ela tenha razão. 

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Nós brasileiros somos acolhidos com simpatia, na maior parte do tempo pelo menos. "A casa de vocês na Europa é Portugal", me disse um senhor em Vila Nova de Gaia. Ouvimos inúmeras vezes: "(...) é um sonho conhecer o Brasil, precisamos visitar!".

Entretanto, inesperadamente, eles conhecem pouco de nosso país e a imagem muitas vezes é carregada de preconceitos e distorções. Eles estranham o fato de termos no Planeta Brasil, como disse um senhor em Sintra, cidades muito frias e algumas que nevam até.

Desconhecem o fato de a imigração alemã, italiana e japonesa ter sido muito forte em algumas regiões. As novelas brasileiras ainda povoam o imaginário coletivo onde os pobres não passam fome, ficam em casa de sapato alto e já acordam maquiados. "Queria ser pobre no Brasil", me afirmou uma lisboeta.

Essa mesma menina me disse: "é impressionante como todo brasileiro é ator. Todo mundo atua bem! Vocês já nascem sabendo atuar?" Contudo, ela me explicou que assistir Cidade de Deus foi uma quebra de paradigma para ela, que saiu do mundo idealizado das novelas, para a violência dura, crua e de certa maneira caricata do Brasil.

Revelou-me que é aficionada pelo Porta dos Fundos e considera dessa forma, que hoje conhece o Brasil de verdade. A mulher brasileira ainda é vista com restrição e o homem brasileiro com desconfiança. Segundo soube, herança deixada por alguns de nossos conterrâneos décadas atrás. 

Eles têm total desconhecimento sobre nossa gastronomia, a influência portuguesa em nossa cultura ou sobre nossos autores, conhecendo contudo nossa música mais antiga como Caetano, Gil, Bethania, Tom...

Uma literata em Óbidos me disse que Portugal não sai do lugar; que a educação está com problemas sérios, que muito se discute, mas que nada é realizado. Comentei que no Brasil se passava a mesma coisa, ao que ela exclamou: "mas estamos na Europa! Todos os países aqui estão seguindo em frente!".

Ela comentou, assim como um senhor, nesta mesma cidade, que a maioria da população não tem o hábito da leitura, que possuem graves problemas gramaticais, tanto na escrita, quanto na fala. 

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Durante uma conversa agradabilíssima em Évora, um advogado disse que Portugal parou no tempo e que o país está à sombra do mundo. Ele afirmou que os portugueses tendem a se depreciar e que se os brasileiros também o fazem, é herança deles.

Os portugueses se mantêm discretos, mas uma vez rompida a capa, a primeira camada, eles estão longe de serem avaros com as palavras; ao contrário, muitas vezes me perguntei se eles conseguiam respirar diante daquela torrente interminável de declarações, afirmações, sentenças, assuntos e perguntas. 

Ainda sobre a questão da autoestima, notei que um elogio os desmonta. Eles ficam deliciados, felizes, gratos, desconcertados. Em uma loja, uma garota me disse como era bom ter sua cidade e seu povo visto através de olhos generosos. Em tempo: há rivalidades entre as cidades portuguesas.

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A cidade mais difícil de entender, e para mim de aceitar em meu coração, foi Lisboa. Eu precisei caminhar muito, olhar e observar, buscar ver além do que estava estampado em minha cara, para conseguir sentir afeição pela capital portuguesa.

Os lisboetas tem dificuldade em sorrir, sorrir de verdade, ampla e largamente. Eles cumprem seu papel, diante de nós turistas, que estamos invadindo, com nossas câmeras e ansiedades, sua antes pacata cidade.

Eles ainda estão tentando acostumar-se e não está sendo fácil pelo que notei. Segundo uma senhora em Évora, franceses, suíços e outros povos do norte da Europa, descobriram Portugal. Em Lisboa eles estão por toda parte.

Havia uma exposição temporária na capital do país onde pessoas enviavam cartas para o prefeito falando sobre a questão do turismo de massa que estava tornando a cidade inviável para seus cidadãos em termos financeiros e havia uma preocupação latente com a perda da identidade advinda desse recente fenômeno.

Um dia qualquer em Lisboa, saindo um pouco das principais ruas, encontramos um restaurante pequenino, com mais ou menos 13 lugares, em mesas compartilhadas, onde engravatados entravam. Fomos atrás.

O almoço foi excelente, o atendimento muito bom. Com a chegada do prato, tirei uma foto para ilustrar os textos do Espiando Pelo Mundo e o moço que almoçava com colegas de trabalho ao nosso lado, compartilhando a mesma mesa, exclamou, ironicamente, desconhecendo que falávamos o mesmo idioma: “mais uma foto para o facebook”

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Portugal é um país pequeno e pode parecer, à primeira vista, homogêneo. Equívoco! Cada cidade tem sua personalidade, sua identidade: às vezes sutil, às vezes gritante, mas as diferenças estão lá, visíveis e marcantes. Apesar do passado ser tão pujante, como se o tempo ali girasse com outros parâmetros, o país está bem longe de ser apático ou pálido, ao contrário, é vigoroso. 

Eu identifiquei muito do Brasil e especialmente de Salvador, em Portugal: nossa espinha dorsal veio daquele país. Eles são nosso Adão e nascemos de sua costela, mas acredito que depois da influência que sofremos de outras fortes culturas e por conta de nosso tamanho continental, hoje nós possuímos uma bossa distinta, muito nossa. 

Ao contrário do que costumam dizer os portugueses, Portugal apresentou-se muito funcional para mim. Apesar de todas as incongruências desse país e de toda surpresa e provocação que ele me causou, foi muito confortável para mim, brasileira, estar por ali. Constantemente eu esquecia que estava na Europa, porque não há similar para Portugal no continente. Ele é único. 

Em suma, Portugal é apaixonante sim, mas engana-se quem pensa que ele é simples, básico. Portugal é cheio de mistérios, mas para o visitante simpático, gentil e educado, ele se mostra, tira alguns de seus véus, se desvenda para nosso deleite. 

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COMENTÁRIOS:

Lou Mariano

Lou Mariano comentou 2 anos atrás

Delicioso te ler, suas percepções e observações me deixaram curiosa para ler mais e entender um pouco sobre este país. Conhece-lo pretendo no futuro breve ;). Obrigada!

Analuiza Carvalho (Espiando Pelo Mundo)

Analuiza Carvalho (Espiando Pelo Mundo) comentou 2 anos atrás

Obrigada Lou! Portugal me surpreendeu muito! Tomara que esse futuro chegue logo! bj Ana

Roberta Giordano

Roberta Giordano comentou 2 anos atrás

Nossa , adorei esse texto. Estou desembarcando em Lisboa dia 27/02, e ao ler seu post parece que já estava caminhando por lá.

Analuiza Carvalho (Espiando Pelo Mundo)

Analuiza Carvalho (Espiando Pelo Mundo) comentou 2 anos atrás

Obrigada Roberta! Bom saber que gostou! Aproveite muito Lisboa! Vai passar por outras cidades portuguesas? beijos Ana

Roberta Giordano

Roberta Giordano comentou 2 anos atrás

Vou ter Lisboa como base, e fazer bate voltas : Évora , Sintra, Cascais/Estoril, Fátima/Nazaré e Óbidos. Portugal está na minha lista faz um tempo mas sempre fui protelando, agora chegou a vez dele e acho que vou me surpreender muito.

Analuiza Carvalho (Espiando Pelo Mundo)

Analuiza Carvalho (Espiando Pelo Mundo) comentou 2 anos atrás

O mesmo aconteceu comigo Roberta. Fui adiando, adiando e quando aconteceu de visitar esse país em Novembro passado, eu me apaixonei, como não esperava. Agora mesmo estou escrevendo sobre o Porto no Espiando Pelo Mundo e está batendo aquela saudade!!! :) Você vai passar por mais cidades do que eu. Aproveite muito! Coma bastante! :) beijos Ana

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