Uma viagem de resgate ao passado


  Ilha Comprida  1258 visualizações

Ilha Comprida, no litoral sul de São Paulo. São 70 kms de uma só praia, na região mais pobre do estado. Um lugar pouco conhecido para a maioria dos viajantes sempre foi a minha maior aventura quando eu era pequeno. Meus pais nunca gostaram de praias movimentadas. E, de fato, mesmo na alta temporada, com palcos e shows na área mais central, o movimento era tolerável. Então lá ia eu todo mês de janeiro para Ilha Comprida..

Como a gente brinca na família, “é um lugar feio com gente feia”. Sempre me hospedei no mesmo hotel, com piscina e sala de jogos. Juntos, iam primos, tios e amigos da família. Ficávamos por lá cerca de uma semana, alternando sol e chuva.

Como todo bom viajante mirim, eu esperava o ano inteiro por janeiro. Nos outros meses, não costumávamos viajar, a não ser para lugares perto de Avaré, minha cidade natal. Eram 365 dias de expectativa. Foi assim de 1990, ano em que nasci, até 2007, meus 16 anos. Nesse período, fui mais de dez vezes para lá. Nos anos em que a grana apertou e não conseguimos viajar, imagina a tristeza deste pequeno viajante.

Nada era mais gostoso do que o dia da viagem. Ajudava os pais a arrumar as malas na véspera. Os primos chegavam em casa para passar a noite e sairmos todos juntos, em comboio. Acordava cedo no dia seguinte ou nem dormia -em certo ano eu e meu primo combinamos de ficar acordado até a hora de sair. Coisa de criança.

E partíamos. Meus pais já brigando na avenida principal da cidade. Se eles não estivessem discutindo por qualquer besteirinha que fosse, eu iria até estranhar, não seriam eles. E então a estrada. De Avaré até Ilha Comprida, pegávamos a Raposo Tavares até Sarapuí, e então duas vicinais até Tapiraí. De lá, a serra da Anta até Juquiá. Mais nove kms na BR-116, até a estrada final que dá em Iguape, vizinha de Ilha Comprida.

Caminho recheado de plantações (principalmente bananas), pequenas propriedades, algumas estradas esburacadas, a famosa parada da Anta, curvas fechadas que alguém sempre vomita. Aquilo sempre me marcou.

E então 2008 foi ano de vestibular. No outro ano eu já estava morando em São Paulo. Meus primos idem, cada um foi para um lado. Meus pais já não tinham o mesmo pique. Eu fui conhecer a Amazônia para fazer uma reportagem de um prêmio que ganhei entre estudantes de jornalismo do Brasil inteiro. Depois fui para a Inglaterra apresentar essa mesma reportagem. Conheci, a trabalho, Fortaleza, Goiás, Espírito Santo, Tiradentes. Fui também para Porto Alegre, Belo Horizonte, Curitiba, Rio de Janeiro e tantos outros lugares a passeio.

O tempo passou e o Brasil e o mundo já não eram mais segredo para esse viajante. Mas nos últimos meses aquela vontade de revisitar meu passado começou a florescer em mim. Como estará Ilha Comprida dez anos depois?  

Comentei com meus pais, que surpreendentemente animaram em fazer a viagem. Minha mãe comentou com uma tia, que comentou com o resto da família, e então 19 pessoas estavam confirmadas. Eu não podia acreditar. Um retorno ao passado no melhor estilo, com todo mundo. As primas pequenas já estavam com filhos, os tios já têm mais de 60 anos, eu já estava formado há mais de três anos. Será que as coisas seriam tão diferente?

Mas tudo continuava igual. A estradinha na serra com seus muitos vendedores de bananas. A parada da Anta sempre lotada. As vicinais com suas pequenas propriedades.

Fiz questão de ir dirigindo, só para aumentar ainda mais emoção do Mateus menino, que imaginava que um dia seria ele o condutor.   

Mateus Souza adicionou foto de Ilha Comprida Foto 1

Ilha Comprida tampouco mudou muito. Comércios novos abriram, claro, mas a pracinha principal, com suas barracas de artesanato, continuam lá. O hotel não pintou uma parede, até as geladeiras são as mesmas de décadas passadas. A praia continua maltratada, com mato e sujeira. E é frequentada pelas mesmas pessoas feias.

Para ajudar, pegamos um tempo hostil. Chuva, nuvens, frio e vento os três dias. A piada que circulava na família era que “o importante é a farra”. E de fato, o importante era a farra. A falação era tanta que chegamos a receber uma ligação do hotel para diminuir a barulheira. Mas, liderados pelo folclórico Tio Marcão, isso era impossível, principalmente na hora do truco. Os adultos estavam soltando a criança que havia dentro deles.

Mateus Souza adicionou foto de Ilha Comprida Foto 2

O escândalo da carne deflagrado pela PF havia estourado no dia anterior, mas não quisemos nem saber. Sábado foi dia de ir ao mercado, comprar carne, frango e linguiça, e dominar a churrasqueira. Mais farra. Viramos pessoas non gratas em todo o hotel.

Houve tempo até para conversas mais filosóficas, em que a grande a lição foi dada por um tio: liguem para seus pais, não importa a hora, não importa o que vai falar. A emoção de um pai em receber o chamado de um filho é inigualável. 

Missão cumprida. Resgatei meu passado com sucesso. A família já está combinando a próxima, mas dessa vez para o Guarujá ou algum outro lugar mais badalado.

Ilha Comprida, só daqui a dez anos, para resgatar o passado novamente.

Mateus Souza adicionou foto de Ilha Comprida Foto 3

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COMENTÁRIOS:

Dani Endler Sobieszczanski

Dani Endler Sobieszczanski comentou 2 anos atrás

Adorei o relato, Mateus!! Eu também tenho uma "praia do passado" aqui no RS e quero voltar lá pra ver como está. Não vou lá há uns 11 anos já...

Mateus Souza

Mateus Souza comentou 2 anos atrás

Volte Dani! A sensação é indescritível! Nada mais é como antes, mas tudo ainda parece como era. Algo meio contraditório haha

Caio Martins

Caio Martins comentou 2 anos atrás

Haha que texto! Adorei. Parabéns Mateus! Você conseguiu passar a emoção desse reencontro!

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