No caminho do zen


  São Paulo  1018 visualizações

Saí da Estação São Joaquim na Linha Azul do metrô, olhei no relógio e descobri que estava atrasado. “Merda!”, eram 18h03. Quando enviei meu e-mail para o Templo Busshinji, na Liberdade, tinham especificado que as meditações para iniciantes aconteciam às 4ªs pontualmente a partir das 18h, e solicitaram para que eu chegasse um pouco adiantado. Eu até saí mais cedo do trabalho, mas, mesmo assim, estava atrasado. Em São Paulo parece que a cidade dita nossos horários.

Xinguei com medo de não conseguir realizar meu estudo e andei apressado. Estava indo ao templo por causa de um trabalho de uma matéria da minha pós-graduação. Deveria realizar uma observação antropológica em algum grupo com algum ritual costumeiro em um local específico. Acabei escolhendo o Templo Busshinji meio que sem querer. Minha escolha inicial era meditar com os monges no heliporto no topo do Copan (sim, isso existe). Descobri esse ritual lendo algumas matérias na internet sobre coisas diferentes por SP e achei isso irado! Pelo que li, aparentemente, em uma manhã de cada mês dois monges meditam lá de cima de um dos edifícios mais icônicos da nossa cidade mandando boas energias para a população. Eu queria ver aquilo de perto. Aliás, não apenas ver. Queria participar.

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Peguei o telefone do templo que encontrei na matéria e disquei 3-2-0-8-4-5-1-5.

– Templo Busshijin, boa tarde – me saudou uma voz do outro lado da linha.

– Boa tarde – eu estava tão ansioso que resolvi ir direto ao ponto. – É daí que dois monges saem para meditar no topo do Copan?

Sim, era. Então, me apresentei e contei sobre o estudo que gostaria de fazer. A pessoa do outro lado da linha me ouviu com atenção e conversou um pouco comigo, não me dando nenhuma negativa. Ela pediu para que eu mandasse um e-mail que mostraria para o monge responsável, o que me deixou muito esperançoso. Mas, para o meu azar, a meditação não aconteceria em um prazo dentro do que eu tinha para realizar minha observação antropológica. Mesmo assim, recebi um convite para visitar o templo e participar de uma sessão de meditação para iniciantes, o que me pareceu uma boa segunda alternativa.

Caminhando apressado pelas ruas da Liberdade, não demorei muito para perceber que minha imersão já tinha começado antes mesmo de chegar no templo. Notei que os postes de luz metálicos e cinzentos tinham sido substituídos por luminárias vermelhas e brancas de estilo oriental, típicas do bairro. Poucos passos depois, avistei um grupo de frente a uma grade metálica cinzenta e duas pedras de pouco mais de dois metros de altura dispostas uma ao lado da outra. Tinha chegado, estava diante do Templo Busshinji.

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- Vocês vieram para a meditação? – perguntei para o grupo, esbaforido.

- Não, estamos caçando pokemons – respondeu um oriental de cabelos compridos, bigode e cavanhaque. Eu observei o grupo rapidamente. Todos estavam com celulares nas mãos. Ele não estava me zuando… a galera ali estava jogando Pokemon Go.

Por um momento pensei em mudar meu objeto de estudo e meu “problema humano”. Pensei muito em procurar descobrir o que faz pessoas saírem caçando pokemons por São Paulo, o que pareceu um projeto divertido.

Alguém fez uma piada que não entendi. Me lembrei de Malinowski e a premissa de que um estudo desse tipo deveria durar até eu ser capaz de entender a piada. Talvez, se ficasse ali mais tempo entenderia aquele grupo, sua linguagem e sua cultura. Mas eu não tinha ido lá para estuda-los. Meu “problema humano” era outro e eu não o deixaria de lado. Para o grupo de caçadores de pokemon, o Templo Busshinji era apenas o lar de um pokemon lendário, o qual eles estavam lá para capturar. Para mim era um objeto de estudo.

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Entrei no templo por uma portaria lateral, aberta eletronicamente por um vigilante e fui conduzido por dois lances de escadas iluminadas por uma luz forte e branca vinda do teto. No segundo andar do templo, meu condutor me pediu para colocar minha mochila e meus pertences em cima de um armário de madeira.

– Não tem problema. Ninguém rouba aqui. Agora, tire seus sapatos e coloque esses chinelos – dizendo isso, ele me entregou um par de chinelos de palha com tiras de tecido preto.

Se os lances de escadas eram iluminados até demais para o meu gosto, o interior do templo era o contrário. Pude sentir um perfume doce no ar e observei que o ambiente era apenas iluminado por velas e envolto por fumaça de incenso. O piso era de madeira e os espaços eram divididos por paredes finas. Em alguns espaços, notei grupos usando vestes escuras ajoelhados de frente para as paredes em silêncio. Eu tinha saído de São Paulo e entrado em outro universo.

Meu condutor me deixou em uma sala escura onde um grupo de pessoas escutava um monge baixinho de cabeça totalmente raspada, que usava um quimono negro de mangas cumpridas e calças cinzentas que me lembravam uma saia.

– Seja bem-vindo – me disse o monge. – Agora deixe os chinelos no canto e tome um lugar.

O grupo na sala estava dividido em três fileiras dispostas de frente a pequenas almofadas pretas. Rapidamente, o monge deu as instruções para o que deveríamos fazer. Com as palmas das mãos unidas fizemos uma referência, nos viramos para as almofadas pretas pelo lado direito e nos ajoelhamos. O nome da almofada era Zafu, como explicou o monge. Fizemos outra reverência e afofamos os Zafus, girando-os gentilmente com a mão esquerda, antes de nos sentarmos pelo lado direito. Colocamos as mãos em forma oval, a direita englobando a esquerda com as pontas dos polegares se tocando, endireitamos a coluna, cruzamos as pernas e posicionamos a cabeça em um ângulo de 45º voltada para o chão. Ao longe, escutei um som de madeira batendo com madeira seguido por um tambor.

– Qualquer pensamento, qualquer sensação ou qualquer memória devem ficar de fora da sua mente agora. Sua mente deve ficar completamente vazia. Você está sentado nessa sala. É apenas isso – disse o monge. Depois silêncio.

Observei o grupo ao meu redor. Pouco menos de vinte pessoas estavam na sala. Ao meu lado, uma senhora oriental de cabelos curtos e óculos ficava perfeitamente na posição prescrita pelo monge, diferentemente de mim que mal tinha cruzado minhas pernas e já estava morrendo de dor. Continuei observando os outros participantes da meditação. Poucas pessoas acima da minha faixa etária. A grande maioria das pessoas estava vestida com calças leves e camisetas, com exceção de duas meninas que aparentavam ter ido para o templo diretamente do trabalho. Conforme o tempo passou, pude perceber o desconforto de outras pessoas (o que me deu um certo alívio por não ser o único naquela situação). Alguns descruzavam as pernas, outros esticavam as costas. Mas, independentemente do desconforto, ninguém falava. Dava para escutar o estômago de alguém roncando e os barulhos da rua. Carros passando, gatos miando e, curiosamente, gemidos de prazer de uma mulher em algum edifício próximo. Fora isso, o silêncio era absoluto. E então, sinos, madeira com madeira e respiração.

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– Podem descruzar as pernas e se ajoelharem na frente do Zafu – comandou o monge. – Em seguida, façam uma referência e fiquem de pé.

Todos obedeceram. E, continuando a obedecer seus comandos, o grupo formou uma roda virada para a direita.

– A cada respiração vocês devem dar meio passo – disse o monge. – Lembrem-se, essa respiração não deve fazer barulho.

Assim sendo, a roda começou a andar lentamente. Tudo o que se ouvia eram os pés se desgrudando da palha do tatame no chão. Alguns andavam mais rápidas do que outros, o que ocasionou certa aglomeração na roda, mas não houve choques entre os participantes. E, novamente, sinos, madeira com madeira e respiração.

– Voltem aos seus lugares – pediu o monge. E iniciamos novamente a primeira parte da meditação exatamente da mesma forma, com reverências e a postura de pernas cruzadas em cima das almofadas pretas antecedendo o silêncio.

Percebi que, para entender o que estava acontecendo, não poderia apenas observar. Eu teria que participar. Tinha que meditar. E foi o que eu fiz. Mas não fui capaz de bloquear minha mente. Pelo contrário. Pensei nos meus relacionamentos amorosos, na minha vida profissional e até na minha espiritualidade. E, por motivo nenhum, minhas pernas começaram a me incomodar menos e eu encontrei certa tranquilidade. Tranquilidade que me deixou surpreso quando ouvi sinos, madeira com madeira e respiração. O tempo passou muito mais rápido do que eu esperava dessa vez.

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– Se ajoelhem diante dos Zafus, façam uma reverência e fiquem de pé – comandou o monge.

Em seguida, fomos todos conduzidos a um segundo cômodo onde o monge começou um cântico acompanhado de outras vozes que fui incapaz de saber de onde vinham. O cântico foi feito primeiro em uma língua que não identifiquei e depois em português:

“Os seres são inumeráveis,
Faça um voto para salvá-los.

Os desejos são insaciáveis
Trate de extingui-los…”

Depois dessa “bênção” final, o monge nos dirigiu a um  corredor, dessa vez totalmente iluminado. Ali, passou os avisos do templo, como vi muitos padres católicos fazerem em igrejas. Falou sobre doações, sobre imersões e encerrou nossa meditação. Enfim estávamos liberados e eu poderia fazer as perguntas necessárias para realizar meu trabalho de pós-graduação.

Primeiramente perguntei para o monge. Queria saber o que ele achava que as pessoas que iam no seu templo buscavam.

– A maioria das pessoas vêm aqui em busca de tranquilidade. É um jeito de se acalmar do estresse do dia a dia.

Eu tinha outras perguntas para ele, mas achei que tinha o incomodado o suficiente com a primeira. Então comecei a perguntar para os outros integrantes do grupo o que foram procurar ali e o que encontraram.

– Vim aqui por causa de uma amiga e encontrei muita dor nas pernas – me disse um carioca cabeludo de mal humor.

– Eu já sou praticante há um ano. Venho aqui em busca de paz e iluminação – me disse um cara magro e alto.

E escutei outros relatos breves dos participantes da meditação. Mas foi uma auxiliar do monastério que me deu a resposta que me satisfez:

– Eu vim em busca de respostas – me disse ela –, e aprendi a não fazer mais perguntas.

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Se para Freud em seu opúsculo “O Mal Estar na Civilização” o homem anseia pela felicidade e esta advém da satisfação de prazeres, para o budismo a mesma se baseia na extinção e minimização dos desejos. Em uma sociedade acelerada com excesso de informação tão grande que a atenção virou um commodity, como apontado por Thomas Davenport e John Beck no livro “A Economia da Atenção”, uma visita ao “Templo Busshinji” vai contra o fluxo de gritos para ser notado simplesmente estando em silêncio. Um lugar onde o ditado “menos é mais” não é válido. Ali, menos é simplesmente menos.

Eu estava dolorido e com fome. Mas não estava mal-humorado. E nem ansioso para mexer no meu celular, coisa que milagrosamente não fiz por 2hrs, do momento em que entrei no templo em diante. Ir ao Templo Busshinji me rendeu um trabalho para minha pós-graduação. Mas, mais do que isso, me deu algo que fazia muito tempo que não encontrava no caos de São Paulo: paz.

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COMENTÁRIOS:

Natasha Esteves

Natasha Esteves comentou 2 anos atrás

Nossa, não sabia da existência desse templo em São Paulo, adorei seu post e a forma como você retrata seus momentos, haha.

Stefano  Giorgi

Stefano Giorgi comentou 2 anos atrás

obrigado, Natasha!! Acho que vai gostar dos outros textos ;)

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