Como fazer safári na África do Sul por 20 reais?


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Não era meu intuito inicial fazer um safári na África do Sul. O famoso Kruger National Park parecia-me caro demais até que, numa dessas conversas de albergue, ouvi dizer sobre o Hluhluwe National Park. Claro, qualquer tour é uma fortuna (cerca de 250 reais SE você já estiver no vilarejo mais próximo ao parque), mas alugando um carro e indo diretamente, dependendo da quantidade de pessoas partilhando, a história muda de figura (um carro simples pode custar um valor semelhante por uma semana e o litro de gasolina está na faixa dos 2,80 reais). Pois bem, vamos lá. Esse parque nacional é acessado desde St. Lucia, mas eu estava em Durban. Embora o que escrevi anteriormente sobre os sul-africanos e a incrível receptividade dos locais seja verdade, os trabalhadores do albergue não se revelaram muito convidativos diante das minhas perguntas em como fazer X ou Y SEM pagar um tour da agência deles. As respostas oscilavam entre "eu não sei" e ", desculpe, mas não faço a menor ideia", apesar de todos serem nativos de Durban e venderem tours regularmente. As pessoas na rua, felizmente, foram muito mais prestativas. 

 Em nota, há curiosidades sobre "como ser mochileiro na África do Sul". Talvez por causa da situação de violência do país, todos os albergues são localizados nos bairros chiques, caros e relativamente isolados. Talvez pela mesma razão, todas as lojas e transportes públicos encerram bastante cedo, como no máximo 8 da noite (o Gauteng train de Joanesburgo encerra às 9) e mesmo os restaurantes não ultrapassam das dez. A rua dos bares caros encerrou duas da manhã, no bairro chique de Durban, sexta à noite. Curioso, porque o Brasil é tão perigoso quanto mas não segue esse padrão. Evidentemente, existem razões históricas e culturais que determinam o "tempo da sociabilidade na pólis" de cada povo, mas não me aprofundarei aqui.  Claro, tive a chance de me unir a outros viajantes e ver que nem tudo é como parece, de que há um cenário "underground" se você souber onde ir e se estiver acompanhado. 

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No albergue havia um viajante colombiano, de 22 anos (onze anos mais jovem do que eu; dois a mais desde quando comecei minhas viagens solitárias). Também existe na África do Sul e nos países adjacentes um sistema de ônibus denomado Baz Bus para mochileiros. Sim, pode ser mais "seguro", mas com preços três vezes mais caros do que os ônibus normais ou os "mini-táxis", aquelas vans baseadas na lotação. Não é da minha filosofia permanecer trancado na bolha de turistas, sem acesso à vislumbrar a vida cotidiana. Não digo que o "povo verdadeiro" seja apenas os pobres - acho inclusive esse pensamento um proselitismo arrogante de certos viajantes europeus ao dizer que as àreas prósperas são cópias fajutas do Primeiro Mundo, como se fosse um privilégio deles; todos os segmentos sociais fazem parte daquilo que chamam de "cultura local". Mas Baz Bus já é demais! É literalmente me buscar de um albergue no bairro chique do lugar X para me levar direto ao albergue no bairro chique do lugar Y! Até a minha vinda de Joanesburgo à Durban de ônibus de rodoviária causou frisson no albergue - "que loucura!", "deve ter sido perigoso!"; caramba! Que loucura! Eu não estou aqui para ficar preso na bolha turística e ver girafas esquecendo que neste país vivem pessoas! Pois bem, o colombiano concordou comigo e nos unimos. Ninguém no albergue sabia dizer sobre carro barato, só alugavam 4 x 4 ("mas todo mundo aqui aluga os 4 x 4 sem problemas, vocês é que são diferentes", eles protestavam) e já estava tarde demais para fazer por Internet. Resolvemos pegar o transporte público até St. Lucia, atravessando a província de KwaZulu Natal com os nativos. Na minivan, uma galinha presa numa caixa, uma televisão LED de 50 polegas comprada do shopping em direção a um vilarejo em casinhas bem simples, algumas em formato circular como se fossem ocas, no caminho! 

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Tanto na van quanto em St. Lucia, uma nota de curiosidade. Vários africanos pensaram que eu e o colombiano éramos irmãos! É a resposta da África aos latinos-americanos que pensam que todos os chineses são iguais! Um pouco de choque cultural: porque para os africanos eu e o colombiano éramos idênticos (porém, infelizmente para a minha síndrome de Peter Pan, invariavelmente ele era o irmão caçula :( ). Porque, para eles, todos os latino-americanos são iguais! 

Chegamos em St. Lucia sábado às cinco da tarde. St. Lucia é uma espécie de oásis - outra "bolha turística" - no meio daquela terra. A principal rua conta com vários resorts, agências de turismos, lojinhas de souvenir e inúmeros restaurantes caros vendendo hambúrgueres e pizzas (nenhum de comida típica). E um único pub (há outros, mais escondidos, nos resorts)! Pegamos o albergue mais barato do vilarejo, aquele que não está listado no Lonely Planet ou no booking.com. E por falta de clientes, tivemos um quarto duplo! 

 St. Lucia tem uma grande curiosidade porque é um vilarejo totalmente encravado num pântano. É realmente um risco sério deparar-se com um hipopótamo à noite e ser atacado por ele! Há placas avisando sobre o perigo por todos os cantos e os relatos verídicos são propagandos entre os moradores. Uma policial foi morta por um leopardo durante a vigilância noturna há cinco anos. E nos trekkings há pequenas sepulturas de quem morreu pelas mandíbulas de um crocodilo ou hipopótamo! Feliz ou infelizmente, não encontramos nenhum hipopótamo à noite. Caso isso acorra, lembre-se de correr em zigue-zague, vide  os hipopótamos ultrapassarem 40 quilômetros por hora, mas são lentos no momento de mudar a direção. 

 Não obstante, havia um problema. A única agência de carro na cidade fechara ao meio-dia por ser sábado e nos chegamos às cinco da tarde. Domingo permaneceria fechada. Teríamos que esperar, no mínimo, até segunda. Por ser mais velho e mais viajado, senti uma certa responsabilidade pelo colombiano. Afinal, eu o convenci a me seguir porque não queria arcar com o custo do carro sozinho! "Vou resolver o problema", prometi, "vamos ao pub conhecer pessoas e descobrir uma solução!". Lá chegamos, sentamos e pedimos uma cerveja. Tomei dois goles enquanto avaliei a área. "Aquelas duas meninas (na verdade uma de 28 e outra de 33 anos) parecem turistas viajando sozinhas com um carro alugado", falei para ele, "vou lá falar com elas e fazer amizades". Bingo!

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Na verdade eram sul-africanas de Durban e estavam em St. Lucian assim como cariocas estão em Búzios no final de semana. Elas também ficaram surpresas pelo fato de termos viajado com os transportes locais, "nem nós fazemos isso!". Em dez minutos conversando falei para o colombiano unir-se à nós e elas adoraram ele também. E após algumas cervejas, "nós já fomos nesse parque antes há alguns anos, mas até que já faz tempo e porque vocês são tão legais, te levaremos amanhã no nosso carro!".

Para padrões locais, tivemos uma noitada longa, até às duas horas da manhã. Um comediante aparentemente famoso na Cidade do Cabo uniu-se à mesa e brindou-nos com várias doses de Jagermesteir após um show de sucesso em um dos resorts. Embora eu deteste acordar cedo em situações cotianas, para o extraordinário não faço ressalvas - Machu Picchu, a Grande Muralha da China, Monte Everest, Deserto do Sahara, Angkor Wat - 4:40 eu já estava de pé e antes das seis batemos na porta delas. E lá elas nos levaram no carro privado até o Hluhluwe Game Reserve! E nada de tour chato cheios de reguinhas. Se em St. Lucia, com suas polícias, é impossível conseguir achar uma loja de licor aberta aos domingo; no caminho, menos policiado, elas abundam. Estocamos cervejas nos vilarejos onde os povos de etnia zulo de fato vivem. Porque ainda melhor do que ver elefantes e zebras, é ver elefantes e zebras bebendo cerveja!  Na entrada, elas foram imperativas, "vocês dois, não abram a boca!". Uma delas saiu do carro e comprou os ingressos pelo preço nativo dos sul-africanos, a dizer, 90 rands (cerca de 20 reais) ao invés de 175 dos turistas. E assim fizemos nosso safári por 20 reais. 

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Claro, há sempre diferença entre o tour e a ida independente. Na teoria, os guias sabem onde os animais estão por conta dos seus habitats e, por mais que muitos me falaram que "it is a game of luck", sempre preferi acreditar que existe razão para alguém se especializar e tornar-se um "park ranger". 

 Após o parque, elas ainda nos levaram para o parque onde jaz a praia e tivemos um piquinique. Claro, oferemos que, naquela noite, as cervejas estariam por nossa conta no pub em compensação à toda gentileza, uma vez que nem mesmo a gasolina elas permitiram que compartilhássemos. No entanto, estavam tão cansadas que não compareceram ao pub (felizmente, trocamos facebook. Foram tão gentis que não gostaria de perder contato com elas). No pub por acaso encontrei um brasileiro viajando com sua mãe. E ele pagou três safáris de mil rands cada um e viu basicamente os mesmos animais que nós. 

O colombiano ficou bastante feliz com o resultado. Para isso, respondi, "não é sempre que consigo essas proezas. Mas com certa frequência, sim!" É sempre possível conseguir àquilo que nos albergues te dirão ser impossível, basta escavar um pouco melhor. Na real, hoje em dia há tantos sites dizendo o básico pelo caminho mais batido que, no final das contas, a solução ideal ainda é pesquisar in loco, por si mesmo :D

 Eduardo CidadeEduardo Cidade adicionou foto de Durban Foto 6

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COMENTÁRIOS:

Marcos Felipe

Marcos Felipe comentou 3 anos atrás

Sensacional! Eduardo, que daora!

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