15 coisas que aprendi viajando sozinha por 15 dias pela Tailândia


  Tailândia  10547 visualizações

Escrevi esse texto muitos meses depois de ter voltado pela necessidade de reviver a aventura e garantir que alguns aprendizados não se perdessem com o passar dos anos. Compartilho aqui alguns episódios que vivi e também alguns aprendizados que levarei comigo para vida (e outras viagens).

Se você está planejando alguma viagem para onde quer que seja, pode pular todos os itens e ir direto para o #15. Tá liberado ;)

Luiza Dal Grande adicionou foto de Tailândia Foto 1
Phranang Cave Beach, Krabi, Thailand at 6 a.m.

#1. Para viajar consigo não basta estar sozinho
Em meus primeiros dias em terras orientais, ao caminhar pelas pequenas ruas de Chiang Mai repletas de templos e monges passantes, eu ostentava no peito o orgulho silencioso de quem tem a coragem de colocar uma mochila nas costas e fazer a primeira viagem sozinha. Todas as manhãs eu saía em minha companhia para explorar uma nova cultura, descobrir novos aromas, desvendar expressões faciais ainda pouco conhecidas e, ainda sem saber, rumar em uma direção até então não planejada, a das minhas mais puras e sinceras verdades. Foi tomando meu terceiro café da manhã em um restaurante qualquer que me peguei decidindo meu roteiro do dia com base no que geraria as melhores fotografias e histórias. Me dei conta de supetão que estar sozinha até ali não passava de ilusão, pois estavam comigo, a cada passo e em cada visita a um novo templo, todos os meus alto julgamentos, máscaras e papéis que eu acreditava ter deixado de fora da minha mochila ainda no Brasil. Me senti uma farsa. Estava eu viajando do outro lado do mundo mas muito mais carregada de tralhas do que quando ia ao supermercado comprar iogurte em São Paulo. Acredito ter demorado em torno de uma semana para conseguir me libertar de tanta tralha e ainda me questiono sobre ter estado 100% livre de todas elas. Acolhe-las foi sem dúvida o ponto de partida para essa mudança que me permitiu estar mais livre e comigo mesma ao longo da viagem.

#2. Seguir sua intuição pode te proporcionar experiências incríveis
Tudo parecia ter saído do script quando me vi tendo que sair sozinha do hostel que estava hospedada. Mas só parecia… Enquanto caminhava comigo mesma rumo à muvuca do Yi Peng Festival que tomava as ruas de Chiang Mai, me perguntava meio chateada por que não tinha conseguido encontrar nenhuma das pessoas com quem tinha marcado. A medida que caminhava, no entanto, esse sentimento me largava e a alegria do festerê de rua tomava conta de mim. Por menos de 5 reais comprei minha lanterna de uma senhora que com mímicas me explicou como ascendê-la e fazê-la flutuar noite à dentro. Segui pela rua que contornava o canal principal da cidade acompanhando pequenos carros alegóricos que tocavam músicas muitas vezes compostas por um simples tambor acompanhado de uma flauta sutil e compunham um simplório desfile que só se parecia com nosso carnaval devido às proporções extremamente reduzidas. Ao chegar no início da Tha Phae Rd, a rua principal onde estava a maior concentração de festeiros (fossem eles turistas ou locais) tomei meu rumo em direção ao rio seguindo o fluxo da multidão composta sempre pela proporção de uma pessoa para uma lanterna. A música nos acompanhava a cada quarteirão mudando somente os arranjos e mantendo a mesma melodia e ritmo alegre. Eu, de turista sozinha, passei a compor a multidão que tinha o único objetivo de ascender sua lanterna e assim encaminhar aos céus a má sorte e receber o melhor para o futuro. Os postes estavam enfeitados por mini lanternas coloridas, as calçadas tomadas por ambulantes que vendiam balões, outras tantas lanternas, comidas de todos os tipos, frutas temperadas com pimenta e sal (!), bugingangas de plástico e artesanato local. O céu, que diante de olhares desatentos parecia estrelado, estava na realidade pintado por inúmeras lanternas de fogo que assumiam o lugar de estrelas e subiam lentamente como se dançassem diante da melodia que ainda ouvíamos em terra. Na metade do caminho percebo que por de trás de um grande muro há uma festa não mais reservada que aquela que acontecia em meio ao caos da rua e sem pensar duas vezes entrei no que descobri rapidamente ser um templo repleto de turistas ascendendo suas lanternas com a ajuda de jovens monges vestindo seus trajes laranja incrivelmente brilhante. Foi assim que ascendi a minha, bem antes do local previsto (às margens do rio que horas depois se mostrou um lugar extremamente caótico e terrível para festejar o que quer que fosse) e com a ajuda de um monge que não parecia ter mais que 15 anos. Dizem que quando um deles te auxilia com sua lanterna a sorte vem em dobro e a minha só me alcançou assim por que saí sozinha e segui uma intuição curiosa que me fez querer descobrir o que tinha por de traz de um muro alto.

 
Luiza Dal Grande adicionou foto de Tailândia Foto 2
November 25th?—?Wat Buppharam, Yi Peng Festival, Chiang Mai, Thailand

#3. Estar perdido nem sempre significa estar na pior
Ainda no Festival de Lanternas e justamente por não ter conseguido encontrar ninguém com quem tinha marcado, saí pelas ruas de Chiang Mai caminhando sem rumo até virar uma esquina e descobrir China Town numa noite festiva! Ahh meu amigo, aquilo sim é festa, o resto é brincadeira de turista! Eu não fazia a menor ideia de que canto da cidade estava e muito menos como faria para voltar para minha cama, eu era ali a única turista caminhando e da mesma forma que estava tão perdida eu era parte daquela alegria. As músicas altas e estridentes das barraquinhas de games se misturavam às flautas e músicas tradicionais que vinham de todos os lados. Famílias inteiras compunham mesas dispostas às margens do rio, riam alto enquanto as crianças corriam de uma mesa à outra carregando seus brinquedos como quem corre pelo tão conhecido quintal da avó, o rio estava iluminado por pequeninos barcos feitos de pães, flores e velas e eu comi ali naquela noite coisas que nunca saberei o que eram. Comidas que aparentemente eram salgadas, mas ao serem colocadas na boca se mostravam bizarramente doce e quase sempre picante, smoothies de pitaia, maracujá, manga e abacaxi traziam um sabor confortante de casa e amenizavam a pimenta presente em praticamente tudo que entrava pela boca. Eu estava perdida e isso era o melhor que poderia ter acontecido naquela noite.

#4. Presença é estar com a alma aonde o pé está e com o pé aonde a alma está 
Se Chiang Mai jogou na cara que minha mochila estava muito mais pesada que os 16 kg acusados em Guarulhos, Bangkok me empurrou pra dentro sem dó nem piedade. Depois de descobrir os excessos, era chegada a hora de vestir somente o que me servia, olhar para dentro silenciando a mente, colocando os pés em mim e a atenção no meu coração. Depois de chegar no hotel odiando Bangkok, chorar muito e cogitar a possibilidade de voltar para o aeroporto e antecipar o voo rumo ao sul, respirei fundo três vezes, fiquei em silêncio e me propus a ouvir além do caos de idiomas, buzinas e sujeira da rua. Algo do lado de fora do meu quarto dizia claramente, “jogue fora seu roteiro e venha conhecer o que é realmente interessante”. Algum tempo depois, tendo assimilado isso, cancelei um tour até Ayutthaya que aconteceria dali dois dias, coloquei os pés e a alma em Bangkok e permiti que a cidade me guiasse rio abaixo, avenida acima, descobrindo centros de arte, vendo exposições fotográficas de tirar o fôlego, assistindo lutas de muaythai que me fizeram chorar, descobrindo mercados clandestinos de animais silvestres e indo embora querendo um dia voltar para desvendar mais um pouco dessa cidade que não se mostra logo no primeiro encontro. E isso tudo só foi possível por que eu estava aberta ao presente. Estava com o meu coração e com a minha atenção aonde meus pés pisavam.

#5. Lugares sagrados independem de religão
O The Grand Palace de Bangkok tinha tudo para ser um programa pega turista com muitas filas, chineses e sol escaldante. E de fato foi tudo isso. Mas foi também o local no mundo que me mostrou que o sagrado que existe em cada um de nós é o mesmo e vibra na mesma frequência independente do credo de cada um. Ali na antiga residência da família real da Tailândia, fica o templo do Buda de Esmeralda, facilmente um dos lugares mais exuberante que já estive. Depois de rodar muito e conhecer cada um dos cantos daquele lugar incrível na companhia de cada vez mais chineses, fui até a entrada do templo para conhecer o pequeno Buda. Ali ainda fora do templo, no momento que tirei meus sapatos e coloquei meus pés naquele chão sagrado, senti uma uma energia subir pelos meus calcanhares e tomar conta do meu corpo acelerando meu coração e fazendo os pelos do meu corpo se arrepiarem. Entrei e propositalmente permaneci em pé num cantinho só observando a dinâmica de todos que entravam, fosse para orar ou matar a curiosidade. Depois de muitos minutos resolvi me sentar com calma e a medida que me aquietava, meditava e deixava lágrimas silenciosas escorrerem pelo meu rosto. Não sei quanto tempo fiquei ali, mas sei que foi o suficiente para amar cada uma daquelas pessoas que entrava, fazia suas orações e saía. Foi o suficiente par amar, dali da Tailândia, em silêncio, cada pessoa do Brasil que mesmo vivendo perto de mim, estava longe do meu coração pelos motivos mais doídos e mais idiotas que podiam existir. Nesse dia, após voltar ao hotel, escrevi essa oração: Que o sagrado do outro possa sempre se conectar ao sagrado que existe em mim. Que estejamos sempre abertos, disponíveis e atentos aos que estão ao nosso redor no agora e que não percamos nunca a sensibilidade necessária para enxergar o valor real daquilo que nos cerca.

#6. Não subestime nunca o poder confortande de um Starbucks
A comida tailandesa é incrível, uma das minhas preferidas antes mesmo da viagem, mas a verdade é que uma semana depois eu não aguentava mais tanta pimenta e doses diárias de frutos do mar e broto de feijão. Com um esforço mínimo sou capaz de contar nos dedos de uma mão quantas vezes, pedi café com leite e um croissant qualquer no último ano, mas ali no meio de Bangkok era só o que eu queria para dar um descanso para as minhas papilas gustativas. Por poucos minutos eu não precisei lidar com nada desconhecido e novo, me senti em São Paulo por tempo suficiente para querer voltar para minha aventura.

#7. Mau humor só serve pra te deixar mais mau humorado
Ao viajar sozinho você sente na pele o quão estúpido é ficar de mal humor em qualquer situação. Afinal, ninguém além de você será prejudicado pelos braços cruzados e a cara amarrada. Depois de perder fácil uns 30 minutos na estação de barcos tentando entender o sistema de funcionamento do transporte hidroviário de Bangkok, com o nível de bom humor abaixo do recomendado, rumei rio a baixo em direção ao Asiatique, uma antiga região portuária recém reformada que passou a abrigar restaurantes, cinemas e teatros, algo bem turístico mas que parecia ser um bom pretexto para andar pelo Chao Phraya, o principal rio de Bangkok. Ao descer na última estação da linha que tinha pegado, me descubro na ponta oposta da cidade frente a um lugar belíssimo porém totalmente fechado. Fui almoçar num complexo que só abriria dali 5 horas. Sem conexão de internet, num bairro praticamente residencial e sem a menor ideia do que poderia fazer a partir dali, perdi uns 40 minutos reclamando, tentando conectar nas redes de wifi disponíveis e não conseguindo pensar em nada para fazer. Quando estava disposta a pegar um taxi para voltar pro hotel e curtir a piscina, ideia que por algum motivo me parecia derrota total, me recordei da Jim Thompson House, um lugar que durante a construção do meu roteiro fazia sentido conhecer. Parei um taxi qualquer na rua, indiquei a direção mostrando o Google Maps e a medida que o GPS do meu celular indicava avançarmos na direção correta, fui procurando mudar meu estado lentamente a cada metro percorrido. Há pouco mais de 750 metros de chegar ao meu destino, cruzo com um dos maiores e mais importantes shoppings de Bangkok, o MBK Center. Fazer esse tipo de passeio estava totalmente fora de cogitação enquanto estava no Brasil, mas dar uma circulada por lá não me pareceu uma ideia muito ruim. E foi graças a essa ideia que, saindo desse shopping que parecia mais uma mega feira, me deparo por acaso, no outro lado da avenida com o Centro de Cultura e Arte de Bangkok ?. Vi exposições de fotografia, cartuns, publicidade tailandesa das últimas cinco décadas, além de ter aproveitado um café delicinha num ar condicionado só amor. Depois disso, fui até a então a Jim Thompson House e fechei meu dia com um por do sol lindo a caminho do hotel. O dia que poderia ter sido marcado pelo dia de maior mal humor da viagem, terminou sendo super bacana e com descobertas incríveis de Bangkok.

#8. Quando você julga perde a chance de se conectar com a realidade do outro
O domingo mais surreal que tive na vida até hoje, foi também meu dia de despedida de Bangkok. Seis de dezembro de 2015 nos estúdios de TV do Channel 7, na 998/1 Soi Phahon Yothin 18/1, Jomphol Jaktujak. Samuel, um amigo querido e lutador fera de Muaythai, me disse no dia anterior que eu precisaria sair cedo do meu hotel para pegar um bom lugar no estúdio e assistir a uma sequência de lutas que seriam transmitidas ao vivo para todo o país. Eu, que nunca lutei e pouco me interessava por qualquer coisa do tipo, teria questionado por um breve instante o que faria naquele lugar, mas naquele momento eu já estava tão envolvida com a cidade e querendo desvendar tantas outras coisas que nem pensei duas vezes em trocar meu roteiro mais uma vez por algo fora do script. Nos encontramos na metade do caminho, pegamos o BTS (sistema de transporte por trilhos de superfície), caminhamos alguns metros sob um sol escaldante e chegamos ao nosso destino. Como uma boa turista, pedi chá gelado tailandês em uma das barraquinhas de rua, acompanhado de um abacaxi inteiro lindamente cortado para tentar amenizar o calor. Ao passar pela portaria do estúdio cruzamos um local onde estavam dezenas de tailandeses que aguardavam a transmissão das lutas que assistiríamos ao vivo dali poucos metros e eu atravessava o portal do surreal mundo underground das apostas. Samuel foi me explicando o pouco que sabia sobre o sistema de aposta que é pouquíssimo aberto para estrangeiros e eu fui vislumbrando através de uma pequena fresta uma atividade ilegal que movimenta milhares de dólares todas as semanas pelo país. As lutas começaram com o estúdio abarrotado de turistas e locais competindo por pequenos espaços nas arquibancadas. Chutes, socos, muito barulho, música, mímicas entre dezenas de apostadores e a platéia e eu adorando conhecer todo aquele universo. Foi quando chegou, depois de 2h30, o momento das lutas infantis organizadas entre pais, agenciadores e treinadores que levam crianças para lutarem em um ringue em troca de alguns poucos trocados. Nessa hora eu desmontei. Chorei por dentro. Senti pena daquelas crianças e julguei. Julguei seus pais, o canal de TV, os treinadores e todo aquele sistema. Demorei para conseguir ter uma visão menos parcial. Demorei para entender que a minha realidade não é necessariamente melhor que a de ninguém e que quando julgo só me afasto e elimino todas as possibilidades de conexões possíveis. Afasto a empatia, a compaixão e o amor por qualquer um que vive em um universo diferente do meu.

 
Luiza Dal Grande adicionou foto de Tailândia Foto 3
Estúdio do Channel 7 em Bangkok

#9. Vá ao supermercado, compre coisas que pareçam gostosas e as coma antes de voltar pro seu país
Sério! Isso é importantíssimo e diminui a probalidade de frustrações pós viagem. Comprei coisas que descobri serem incríveis só no Brasil. Se tivesse comido ainda em solo tailandês teria certamente trazido um estoque na mala dos bombons de coco com chocolate mais incríveis da minha vida, que me custaram R$ 6,00 no supermercado em Bagkok e incríveis $27,oo na Amazon!

#10. O único instante que importa é o tempo de uma respiração
Andando pelas pequenas ruelas de Koh phi phi atrás de algo interessante para fazer, passo por uma escola de mergulho e penso… por quê não? No dia seguinte, já dentro do barco e a caminho de Maya Bay para o primeiro mergulho da manhã e da minha vida (!) lembro-me de algo que não se esquece "tenho claustrofobia!" Um arrepio frio percorre a minha espinha e eu me lembro de todas as vezes que não consegui usar um simples snorkel por sentir pânico ao não consegui respirar pelo nariz. Eu tinha duas escolhas nesse momento, desistir do mergulho e curtir um simples banho de mar como tantos outros que já tinha tido, ou não dar muita bola para o pânico e ver o que acontecia já dentro d’água. Instruções básicas aprendidas, equipamento vestido, tchibum! Joe, até então só meu instrutor, dali algumas horas o responsável por me tranquilizar à 15 metros de profundidade com um único olhar, sugeriu que eu me afastasse do barco já utilizando a máscara e o regulador para só dar uma conferida no que tinha em baixo de nós. Coloco a máscara, meu coração acelera, mas só até o momento de colocar a cabeça de baixo d’água e descobrir um universo azul turquesa cheio de vida e movimento bem de baixo de onde eu estava. Foi como se eu tivesse descoberto uma realidade paralela que sempre existiu por de trás de cortinas que nunca tinha tido coragem suficiente para cruzar. Outras pessoas já mergulhavam naquele cristal líquido na companhia de peixes tão coloridos que já superavam minha caixa de lápis de cor, as algas multicoloridas presas ao paredão rochoso que se misturava com corais belíssimos, dançavam de acordo com o balanço da maré e, mesmo a pesar do silêncio, aquele novo universo era tão vivo que eu escuto até hoje toda a sinfonia que ouvi ao colocar a cabeça na água com os olhos realmente abertos pela primeira vez naquele dia. Eu nadando lentamente sendo empurrada pelo movimento dos meus pés que se acostumavam às nadadeiras, o respirador funcionando normalmente, a vida existindo de baixo de mim e eu tendo a necessidade de volta e meia tirar a máscara para sentir a liberdade confortante de respirar pelo nariz. Dali alguns minutos, chegou a hora de desinflar o colete e imergir no mar. Isso foi assustador. Era assustador saber que mesmo que eu quisesse não conseguiria subir a qualquer momento à superfície devido aos lastros que me afundavam. Precisei resolver comigo mesma, em questões de poucos minutos, como encararia as próximas duas horas para curtir um passeio que desejava há pelo menos dois anos. O caminho que encontrei foi colocar a atenção na minha respiração e não nas circunstâncias assustadoras da falta de controle que me cabia naquele momento. A cada inspiração eu precisava fazer um esforço consciente de usar minha boca no lugar das queridas narinas. 

Tudo parecia estar sob controle, eu flutuava com cardumes de peixe amarelos e azuis que se comportavam como uma grande massa amorfa que se adaptava ao movimento das marés e dos intrometidos seres humanos que insistiam em vê-los ganhando novos formato, quando em um brevíssimo momento cometi o vacilo de tentar respirar pelo nariz. Experimentei por uma fração de segundos o pânico que me trouxe a certeza de que morreria asfixiada naquele mar incrível. Cara, foi horrível. Pedi para subir à superfície naquele mesmo momento que demorou eternos dois minutos (ou menos) para se concretizar. Levei uma bronca leve de Joe (que depois me pediria desculpas em silêncio ao saber da claustrofobia já no barco) por desperdiçar tempo do meu mergulho no paraíso "por causa de nada." Recuperada minha paz e lucidez depois de tirar a máscara e respirar livremente por alguns segundos, tomei a decisão de não mais surtar de baixo d’água e de controlar com todas as minhas forças um futuro ataque de pânico. E assim segui, com a certeza de que não poderia, em nenhum momento sequer, tirar a atenção do que nos é tão automático no dia-a-dia, respirar. Segui sentindo o ar preencher meus pulmões e me confortando na possibilidade de sobreviver naquele ambiente, sendo grata por poder presenciar tanta vida e beleza e tendo a certeza de que eu era capaz de estar ali. Segui sendo espectadora de uma das paisagens mais deslumbrantes da minha vida, vendo peixes de espécies que nunca saberei o nome. Mergulhar definitivamente não foi uma tarefa fácil, senti medo todas as vezes que me dei conta de estar com mais de 10 metros de água em cima de mim e um oceano inteiro ao meu redor, mas mergulhei de cabeça, vi tubarões e descobri que na vida o único instante que realmente importa é o tempo de uma respiração.

#11. Estar em paz com o silêncio precisa ser exercitado sempre
Depois de Koh Phi Phi era hora de conhecer Railay Beach, uma praia que te recepciona sem pier, sem estrada e te obrigando a carregar suas malas nas costas mas com um sorriso no rosto e a certeza de que o paraíso pode ser bem simples. Railay foi especial por ser simplesmente Railay, uma praia onde só se chega de barco e não tem atrações suficientes para te distrair por mais de um dia. Depois de ter vivido tantas experiências eu precisava ficar quieta, sentir o que acontecia em mim, entender as decorrências do que vivera nos dias anteriores e o que viria a acontecer depois que voltasse tão diferente para o Brasil. Fiquei três dias querendo passar uma semana inteira. Não conheci ninguém, não compartilhei refeições e também não tive longas conversas. Fiquei quieta existindo na areia, boiando no mar, remando um kayak e vendo o sol se pôr no mar. Nesses três dias eu realmente descansei. Não tive grandes emoções, não superei nada, não venci medos, só exercitei o silêncio de estar comigo e ouvir tudo que ele tinha a dizer.
 
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Chegando em Railay Beach

#12. Acordar às 6h da manhã faz com que lugares incríveis tornem-se sublimes 

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A praia mais linda da minha vida ou Phranang Cave Beach em Railay Beach, Krabi, Tailândia

Último dia de viagem, fui dormir na noite anterior com a certeza de que aproveitaria até o último minuto aquele paraíso chamado Railay Beach. Dito e feito. Acordei às 6 da manhã, deixei o café da manhã do hotel de lado e parti rumo a praia mais linda da minha vida. E lá estava Phranang Cave Beach encantadoramente deserta, silenciosa e com a água mais cristalina que já vi na minha vida ? 
Seria injusto falar que nos horário de maior movimento a praia fica lotada como Maya Bay, mas o barulho dos muitos barcos e as pessoas na areia disputando espaço com os macaquinhos que vão atrás de comida, são suficientes para diminuir (um pouco) seu brilho e a natureza sublime que cerca a curta faixa de areia que fica entre dois gigantescos paredões de pedra.

#13. Tenha um roteiro que seja bom o suficiente para não te preocupares em joga-lo no lixo
Não verifiquei, mas durante os 15 dias de viagem devo ter seguido somente uns 40% do meu roteiro inicial, mantendo praticamente só o tempo de permanência em cada local e alguns poucos passeios. Então vá achando que tem o melhor roteiro que poderia ter construído, mas chegando lá, tenha a segurança de que abandona-lo pode ser o melhor para sua viagem.

#14. Tem coisas que devem ser guardadas somente no coração
Durante esses 15 dias de viagem, compartilhei todas as minhas mais profundas verdades com um pequeno caderno de bolso que ironicamente foi perdido nas últimas horas da viagem no aeroporto de Krabi, 1h antes de voltar para Bangkok. Chorei por dentro e agradeci por ter, 20 minutos antes, lido ele inteiro do início ao fim ?

 
Luiza Dal Grande adicionou foto de Tailândia Foto 6
Thai Tea e meu pequeno caderno no último dia em Chiang Mai na Raming Tea House ?
#15. Tem gente demais falando como tem que ser a SUA viagem perfeita.
Os post do tipo “10 motivos para você começar a viajar sozinho” ou “15 coisas incríveis que só acontecem com quem viaja sozinho” me acompanhavam há anos e foram grandes responsáveis por idealizar viagens cheias de galeras de diversas nacionalidades, programas bacanudos de gente descolada e baladas super cool no centro de cidades cosmopolitas que nunca dormem. Esses textos são ótimo para dar aquele gás necessário para iniciar uma aventura incrível, mas eles também podem ser um tiro no pé por construírem um estereótipo lindo de viagem perfeita e incrível. Como já contei aqui pra você, o início da minha viagem teve uma parcela de frustração e uma dorzinha no ego por achar (que idiotice) que minha viagem não estava sendo a mais incrível possível. E sorte a minha ter me libertado disso a tempo de curtir dias totalmente livres de qualquer expectativa de quem quer que fosse. Foi lindo e perfeito desconstruir ainda na Tailândia o ideal que eu tinha de viagem perfeita. Foi libertador perceber que eu não precisava ficar amiga do mundo e que era sim possível respeitar minha vontade de passar um dia inteiro em silêncio, por exemplo.

Então meu desejo pra você que me leu até aqui é: jogue tudo que escrevi no lixo. Esses 15 aprendizados são meus e escrevi tudo isso aqui por um desejo bem egoísta de não perder essas memórias. Vá atrás da SUA viagem e das suas EXPERIÊNCIAS. Vá para o mundo viver aquilo que precisa ser vivido por VOCÊ!


 

 

 
 
 
 

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COMENTÁRIOS:

Caio Martins

Caio Martins comentou 3 anos atrás

Uau Luiza! Ameii!! Parabéns!

RUTECN

RUTECN  comentou 3 anos atrás

Muito bom texto! Além do bom humor com que relata a viagem e dos proveitosos conselhos, os detalhes me prenderam e me transportaram de volta ao país (fui em 2003). Parabéns!

Catarina Carvalho

Catarina Carvalho comentou 1 ano atrás

EU AMEI! ACHO QUE ERA EXATAMENTE ISSO QUE EU PRECISAVA LER PRA DEIXAR ESSA INSEGURANÇA DE LADO E ME AVENTURAR POR 15 DIAS EM SETEMBRO NO SUDESTE ASIÁTICO. PODERIA COMPARTILHAR SEU ROTEIRO? ESTOU PROCURANDO IDEIAS PARA INCREMENTAR O MEU.

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