Segurando essa Barra do Una que é gostar de você


  Praia de Barra do Una (São Sebastião)

Muita coisa na minha vida está uma merda. Muita, muita, muita mesmo! E muitas vezes eu me pego pensando na seguinte passagem de Sandman, de Neil Gaiman:

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“Andei fazendo uma lista de tudo que não ensinam na escola. Não ensinam a amar. Não ensinam a ser famoso. Não ensinam a ser rico ou pobre. Não ensinam a se afastar de alguém que você não ama mais. Não ensinam a saber o que se passa na cabeça dos outros. Não ensinam o que dizer a alguém moribundo. Não ensinam nada que valha a pena saber.”

No meu caso, não me ensinaram a viver para pagar boletos, a me preocupar em quanto tempo ainda tenho com alguns familiares ou a acordar de manhã sabendo que gostaria de ir para a aula ao invés de para o trabalho. Tudo isso venho aprendendo com a vida. E a vida não é uma professora muito doce ou paciente, mas ensina bem. Tão bem que eu tenho aprendido rápido a maioria das lições. Até mesmo porque, se não aprender de primeira, acho que não terei uma segunda chance na maioria dos casos.

Apesar de muitas matérias da vida serem uma tortura como uma aula de química orgânica, outras até que são divertidas, como fazer um trabalho de artes ou redação. E uma das matérias que estou tentando aprender ultimamente é como me relacionar amorosamente de novo. Com a minha trajetória, não é algo muito fácil. Mas a vida, sabendo da minha dificuldade, resolveu me dar auxílio extra e aula particular. Sendo assim, mandou alguém para cuidar de mim. E três meses depois eu perguntei algo que não imaginava ser mais capaz de perguntar: "quer namorar comigo?".

Ela disse "sim". Afinal, em três meses passamos por um bom processo de testes. O teste da saudade, dos amigos, da família, do ciúmes, das responsabilidades, da convivência, enfim... teste da porra toda. Aliás, quase. Teste da "porra toda" menos um. Faltou o teste da viagem. E esse é um baita teste. Talvez o mais importante. Quer saber se você se dará bem com uma pessoa? Então viaje com ela. Antes disso é impossível saber com 100% de certeza.

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Então, oficializamos o namoro sábado de manhã e partimos para Barra do Una para aproveitar o feriado de 09/07. Um dia antes foi jogo do Brasil e enchemos a cara, então não dá para dizer que acordamos cedo e caímos na estrada. Simplesmente acordamos, compramos café da manhã e fomos. Sem pressa ou ansiedade, diferente de pessoas que levantam da poltrona do avião logo depois do pouso (puta coisa irritante). E seguimos assim na estrada, sem correr que nem loucos, conversando e curtindo o caminho. Enquanto eu dirigia, ela trocava a música e me alimentava. Entre um CD e outro e mordidas de pão de queijo e goles de chá mate, o cinza e concreto deram lugar ao colorido e à natureza. Conforme essa mudança de cenário acontecia, eu também mudava. Deixava o estresse de lado e voltava a ser criança que só quer brincar. Tanto que, quando passamos Bostacéia (mais conhecida como Boracéia), eu não me aguentei. Comecei a procurar uma praia simpática para parar e tomar banho de mar. E foi o que fiz em Juréia!

Segundo Carol, minha namorada, eu virei um filhote de labrador correndo para a água. E não satisfeito com isso, ainda levei ela para andar nas pedras comigo. Ali minha transformação se completou. Eu deixei de ser um adulto carrancudo e virei moleque fantasiando aventuras. Só saímos da praia quando a fome por diversão foi superada pela fome de verdade. E saber que tínhamos comidinha de vovó esperando a gente em Barra do Una foi um empurrãozinho a mais para um último mergulho no mar antes de voltar para a estrada.

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Lembra que falei no começo desse texto que muita coisa na minha vida está uma merda? Bom, a maior parte dessa merda toda é a situação financeira. Acho que por isso acabamos fazendo nossa primeira viagem ficando hospedados na casa dos avós da Carol. Veja bem, eu já conhecia os avós dela, já gostava deles, mas para a primeira viagem de casal nós ficarmos hospedados desse jeito era colocar o nível do teste no hard. Viajar com família já é foda. Agora, viajar com a família da recém-namorada é muito mais foda. Tem que se preocupar com o monte de coisa, tipo linguajar, comportamento e horários que dificultam muito as coisas.

Bom, eu queria poder escrever uma metáfora falando que o nível hard é mais divertido porque é mais desafiador e o caralho, mas não posso. Não que não seja. Mas é que esse modo hard era um easy disfarçado. Os avós dela mimaram muito a gente e a casa era linda. Ficar lá me lembrou as viagens que fazia para o litoral com meu pai e foi excelente para deixar minha visão de adulto preocupado na estrada, em algum lugar entre São Paulo e Barra do Una.

Então, como um labrador filhote, voltei para a praia com minha namorada depois do almoço. E lá entrei no mar, tomei banho de rio e fiquei fazendo desenhos na areia ao pôr do sol. Eu respirava vida e queria mais e mais e mais... Embriagado pelo ar puro, queria consumir tudo o que aquela região poderia me oferecer. Na minha cabeça, queria ir para outras praias e talvez até Ilha Bela no dia seguinte, explorando vários lugares pelo litoral norte durante os três dias de feriado. Mas, muitas vezes, menos é mais. E a praia de Barra do Una é tão incrível que mudei de ideia naquela tarde mesmo, antes de escurecer.

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Na manhã do dia seguinte, peguei um caiaque e dei uma de Indiana Jones explorando o Rio Una. Dessa "aventura" a Carol não participou. Só tínhamos um caiaque (empréstimo da casa da vovó) e ela queria ficar tomando sol, mas não me encheu o saco e nem ficou com ciúmes por eu estar indo remar na companhia de mim mesmo (individualidade é algo fundamental para qualquer casal). Então, enquanto ela ficou no nosso acampamento base, feito por cangas deitadas na areia da praia diante do mar, eu comecei a remar. Remei, remei e remei, até a praia e a marina ficarem para trás. E me peguei sozinho no meio do rio em um cenário paradisíaco e assustador. Ouvi apenas o som do vento sobrando nas árvores e dos pássaros cantando, e por onde olhava via o colorido da natureza. Isso é paradisíaco. O assustador é que, sozinho no meio do rio, eu parecia um personagem coadjuvante de um filme tipo Anaconda ou Pânico no Lago, prestes a ser devorado. Ri de nervoso e achando graça no pensamento. De repente, escutei algo vindo na minha direção. Olhei para o lado. Uma enorme cobra estava ondulada saindo e entrando na água bem perto de mim. Pisquei e vi que era só um tronco retorcido. Do outro lado, vi uma cabeça de crocodilo sair da água. Mas em milésimos de segundos a cabeça virou uma folha boiando. Mesmo assim, o som de algo se aproximando continuava. E estava cada vez mais perto. Com o cú em uma mão e o remo na outra, observei atentamente de onde o barulho vinha. O tempo não era mais contado por segundos, mas pelas batidas do meu coração. E, conforme o coração batia mais rápido, mais próximo algo se aproximava. Até que enfim o "algo" surgiu e eu puder ver o que era. Um cara remando em cima de uma prancha de stand up, feliz da vida. Eu ri aliviado. Se nenhum crocodilo ou cobra comeu aquele cara, eu é que não iam comer.

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Perdi a noção do tempo na minha expedição e quando me dei conta disso voltei apressado para a praia. Individualidade é importante, mas companherismo também é. Então, cheguei pronto para comprar um milho e uma água de coco como forma de dizer "não te abandonei" para a Carol. Funcionou. Alimentados e hidratados, fomos dar uma volta pela praia para brincar com a Go Pro tomando banho de mar. Depois de vários mergulhos, caldos, risadas e beijo submarinos, ficamos exaustos e resolvemos voltar para um bom almoço caseiro na casa da vovó. Dizem que a fome é o melhor tempero. Isso é mentira. Melhor tempero é alguma coisa que avó aprende ao longo da vida e põe em prática depois que tem netos.

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Durante meses eu fiz dieta, academia e a porra toda para ficar com corpo bonito e barriga tanquinho. Deu certo, até eu mudar meu status de relacionamento no Facebook. Ali eu ganhei mais 2kg de gordura. E ganhei outros 2kg depois do almoço na casa dos avós da Carol. Com isso, fiquei com barriga e precisava fazer alguma coisa para remediar a situação. Então, após o café com muitos dedos de prosa, pegamos duas bicicletas e fomos atrás do pôr do sol. E não queríamos qualquer pôr do sol. Queríamos O pôr do sol. Por isso pedalamos até uma subida que dá acesso à estrada que leva até Juquehy onde existe um mirante improvisado que dava uma vista linda, mas não nos contentou. Dali, subimos mais um pouquinho em uma rua de paralelepípedos que levava a um edifício governamental qualquer. Ali sim era a vista perfeita que fotos e palavras não podem descrever. O único jeito de captar aquele pôr do sol é vendo ele você mesmo.

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Descemos o morro antes de escurecer, mas tivemos que fazer uma parada para tomar uma cerveja e comer uma casquinha de siri em um restaurante próximo a praia e na curva do rio chamado Divino. O preço é caro e o serviço uma merda, mas o ambiente é uma delícia e a comida também. Ao mesmo tempo recomendo e não recomendo. Vai de cada um. Entretanto, uma coisa que recomendo 100% é o que fizemos no jantar.

Como queríamos dar um espaço para o vovô e a vovó, resolvemos pegar o carro e comer pizza ali do lado, em Juquehy, em um lugar chamado Freijó - Pizza bar e arte. Assim não abusamos da hospitalidade e tivemos um date romântico no meio da viagem. O Freijó tem um ambiente rústico iluminado por velas e as pizzas são uma delícia, apesar de caras. Pedimos meia Amalfi meia Calabria (R$82) e saímos rolando de lá. Mas, como sobremesa é outro departamento, fizemos a digestão caminhando até uma barraquinha de churros (raiz, não nutella) lá perto. Não se deixe levar pelo churros gourmetizado do shopping. Pode até ser bom, mas gourmetização de churros é muita sacanagem.

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Quando voltamos para Barra do Una, o céu estava inteiro estrelado. Morando em São Paulo acho que acabei esquecendo quantas estrelas brilham lá em cima. Não tem como não ficar maravilhado e pensar em alguns detalhes da vida. Como no quanto eu ganho pelo que recebo ou para onde estão indo todos os meus sonhos enquanto eu vivo acordado. Mas o maior de todos os pensamentos era algo extremamente positivo: faria sol no dia seguinte. Pelo menos era o que parecia.

Depois que fomos dormir, o céu estrelado deve ter ficado cada vez mais dublado. Quando acordamos o sol brilhava timidamente entre névoa e nuvens. Era um jeito menos triste daquele paraíso dizer "até logo" para nós. Sair de lá com céu azul e sol brilhando seria doloroso demais, quase impossível. E, mesmo com uma tempestade de olhos castanhos se aproximando, eu precisava me despedir do mar do jeito certo. Então, eu e a Carol pegamos as bicicletas e fomos até o Praia do Engenho, ali do lado. Lugar lindo nublado, imagina com sol...

Foi andando até o canto direito da Praia do Engenho que encontrei algo que me impressionou. Cravado nas rochas, estava um altar cheio de conchas e santos que me fez sentir uma energia incrível. Ali, meu "eu" menino se juntou ao meu "eu" adulto e ambos se ajoelharam fazendo uma prece. Afinal, Deus não está só nas igrejas e nos templos. Está em todo o lugar. E, assim sendo, entrei no mar para lavar minha alma e deixei uma oferenda para quem chegar chegar lá depois de mim: fé na vida!

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Não é fácil ser adulto, mas também não é uma escolha. Entrentanto, é bom saber que às vezes a gente pode voltar a ser criança. Que pode desenhar na areia da praia, remar em um rio cheio de cobras e crocodilos imaginários, pedalar para o pôr do sol e admirar o céu estrelado com a barriga cheia de churros raiz. E é bom enfrentar alguns testes que como criança a gente não enfrenta. Quando passamos por eles, vemos que estamos prontos para muita coisa que a vida oferece. Como meu relacionamento que passou no teste da viagem me fazendo saber que muitas outras viagens maravilhosas virão pela frente. Posso estar triste de olhar para a janela do trabalho e ver tudo cinza lá fora, mas no canto da minha boca eu tenho um sorriso tímido guardado com as lembranças da primeira viagem de um começo de namoro que eu não sei ainda no que vai dar. Aguardemos as próximas lições e testes para descobrir. Tomara que sejam tão divertidos quanto segurar essa barra que foi essa viagem para Barra do Una!

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