GiraMundo - Uma história surrealmente real


  Lucca, Toscana, Roma, Jerusalém, Ibiza, Praga, Líbano, Albânia, Grécia, Turquia, Chipre  2468 visualizações

Todo mundo que ouvia minhas histórias de viagem falava a mesma coisa: você tem que escrever um livro. Dois anos depois de voltar para o Brasil, foi o que eu fiz. Escrevi um livro chamado GiraMundo - Uma história surrealmente real, que conta sobre quando joguei tudo para o alto, fui de Roma a Jerusalém pegando carona e acabei morando pelos seis meses em Ibiza.

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Mesmo depois de escrever o livro eu não sei direito como minha história começou. Não sei se foi após o término desastroso de algum relacionamento amoroso, ou talvez a gota d’água de uma vida de trabalho que jamais me satisfez, ou até mesmo quando a Dilma e o Geraldão ganharam as eleições em 2014. Só sei que estava com o saco tão cheio de tudo que precisava partir. E partir rumo a uma jornada que mudaria minha vida. Não simples ir para uma viagem de férias ou um mochilão. Eu não queria conhecer o mundo. Queria conhecer meu lugar nele.

Sendo assim, escolhi um caminho a percorrer. Como já mencionei anteriormente, iria de Roma a Jerusalém, da Cidade Eterna a Cidade Santa. Pareceu um bom caminho para eu procurar por Deus e por mim mesmo. E quando digo Deus, apesar de ter sido criado como católico, quero dizer da forma mais ecumênica possível.

O começo foi a pior parte. Eu faria Couchsurfing pela primeira vez na minha vida e não tinha a menor ideia do que esperar. Além disso, tinha duas missões na Itália: ir para uma audiência com o Papa e encontrar a família do meu avô na Toscana. Naquele ponto eu tinha uma página em branco na minha frente, apenas com ideias de como começar minha história. E páginas em branco dão medo. Mas a vida é muito melhor com um frio na barriga, então eu liguei o foda-se e fui realizar meu sonho com medo mesmo.

Em Roma eu tentei fazer todo o tipo de serviços em troca de moedas para sobreviver. Infelizmente, ninguém queria nada que eu pudesse oferecer. Mas as pessoas me davam ajuda com comida e com passagens de metrô. No meu aniversário, uma mulher me deu um saco de pão. Por mais faminto que eu estivesse, era pão demais para mim, então eu resolvi dividir com os mendigos da cidade. Foram eles que me ensinaram tudo o que eu precisava saber sobre a vida de cigano nas estradas, que eu falo em maiores detalhes no livro.

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De Roma fui para a Toscana. Uma menina com quem saí na noite anterior me deu um bilhete de trem. É impressionante como ser um aventureiro é envolvente para o sexo oposto. Lá passei uma semana conhecendo meu avô que morreu quando eu tinha apenas cinco anos de idade. E aproveitei para deixar tudo o que eu tinha para trás, inclusive a maior parte do meu dinheiro (que não era lá tanta coisa assim). Depois de me despedir da minha família, parti com uma mochila contendo apenas o essencial para sobreviver rumo a uma comunidade anarquista em uma biblioteca debaixo de um castelo medieval, onde vivi por cinco dias sem água quente ou energia elétrica. Achei essa comunidade meio que na sorte, em uma tentativa desesperada de não morrer congelado nas montanhas.

Voltei para o Couchsurfing e fui para Nápoles em busca de um navio para cruzar o Adriático. Descobri que estava do lado errado da península. Pulei dois trens, e fui preso. Fui solto e pulei mais um trem. Cruzei o mar praticamente em uma barca de refugiados para a Albânia, onde conheci uma holandesa evangélica que me levou para sua igreja e me deu teto e comida por uma noite.

Desci a Albânia toda por carona. A maioria das pessoas ali nunca tinha visto um brasileiro na vida, então faziam de tudo para me ajudar. Posso dizer que conheci Baba Tomori e os antigos deuses albaneses, mas o melhor de tudo foram as pessoas que passaram pelo meu caminho. Uma noite dois policiais fizeram um bloqueio na estrada para pararem todos os caminhões que passavam e acharem um para me levar ao meu próximo destino, para você ter noção no quão gente boa o povo albanês foi comigo.

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Da Albânia fui para a Grécia. Meu primeiro destino foi Meteora, a enorme formação rochosa repleta de monastérios ortodoxos. Lá uma freira me deu um amuleto de Santo Stefano depois de ouvir que eu estava a caminho de Jerusalém. Depois daquilo, sempre que estava fodido no meio do nada, comecei a fazer uma prece para Santo Stefano, e posso dizer que até agora ele nunca me deixou na mão. De Meteora fui para Atenas, onde conheci uma semi-deusa grega. De Atenas fui prestar minha homenagem aos 300 de Esparta, aproveitei para tomar banho na fonte que Hefesto fez para curar Hércules e segui viagem para Tessalônica onde fui hospedado pela reencarnação de um filósofo ilustre.

Deixei a Europa para trás indo para Istambul, onde dois amigos turcos que eu conheci na comunidade anarquista me hospedaram. Pisando na Ásia pela primeira vez na minha vida, fui em busca da armadura de São Jorge na Capadócia, mas só achei chaminés de fadas que mais pareciam pirocas gigantes. Mas talvez tenha sido São Jorge que me salvou da morte certa, quando eu caí de um penhasco ao invadir um museu a céu aberto (o pior de tudo é que eu invadi o museu errado).

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Continuei rumo ao sul. Peguei carona com um sírio que me deu um lugar para dormir e comida a noite. Ele tinha sete outros amigos, nenhum com passaporte e muito menos vistos para estarem na Turquia. Não demorou muito para eles me dizerem que estavam contrabandeando moedas de ouro. Demorou menos ainda para eles pedirem ajuda e me oferecerem uma parte do tesouro como pagamento. E demorou só um pouco mais para eu descobrir que eles queriam me matar.

Fugi para Chipre. Lutei Jiu Jitsu contra sete caras para poder dar aulas. Não perdi nenhuma luta. Consegui dinheiro. Continuei pegando carona e contando minha história para entreter os motoristas. Ganhei 200 euros em um dia.

Comprei uma passagem para o Líbano. Fiquei em uma cidade a duas horas de distância do ISIS, onde curti uma das melhores baladas da minha vida. Depois de uma semana descansando na casa de amigos, fui para a Jordânia e logo em seguida para Israel. Era domingo de Páscoa quando eu entrei em Jerusalém. Não conseguia parar de chorar, pensando que tinha finalmente chegado. Mas não encontrei Deus por ali. E não vou dar spoiler do livro aqui e dizer onde O encontrei na minha viagem.

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Com o resto do dinheiro que sobrou da carona e do que eu tinha levado de emergência, comprei uma passagem barata para a Hungria e fui para Budapeste, onde conheci uma princesa num castelo que infelizmente eu nunca mais vi ;(. De lá fui tomar um porre em Bratslava, em um festival de cerveja. Ao devolver copos ganhava 2 euros... resultado: enchi a cara e lucrei!

De Bratslava fui para Praga. É quase impossível pegar carona na República Tcheca e não ficar entorpecido. Até hoje não sei como cheguei em Praga. De Praga fui para Berlim e de Berlim para Sonderborg na Dinamarca. Lá ganhei um corte de cabelo. Realmente, eu precisava. Depois de quase três meses eu parecia um mendigo... o que não era muito distante do que eu era.

Desci para Hamburgo onde dormi (na verdade não) na casa de uma gata alemã que conheci em uma balada. De Hamburgo fui para Colônia visitar uma amiga de infância. Meu caminho ideal era descer direto para a Suíça e de lá ir para a Itália. Mudei de ideia de última hora e fui para a casa de uma amiga em Maastrich na Holanda. Acho desnecessário dizer como eu passei meu dia na Holanda, mas deixo para você imaginar ou ler no livro.

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Uma amiga da minha mãe me convidou para visitar Luxemburgo. E graças a Deus eu fui. Não poderia ter sido melhor recebido, e ganhei uma passagem para Ibiza, onde eu tentaria a sorte procurando trabalho para juntar uma grana durante o verão e começar uma nova vida na Europa. Mas teria que sair de Pisa na Itália que estava a mais de 1000km de distância.

Corri como um louco e consegui chegar onde eu queria e na hora que eu queria. Dormir na rua na Suíça é crime, e eu não poderia ser preso, senão perderia minha passagem. Então fui para uma igreja, e contei minha história. Um cozinheiro italiano me deixou dormir na casa dele e me ofereceu um excelente jantar. Dia seguinte, continuei minha corrida desesperada.

Eu cheguei a tempo e peguei o avião. E encontrei uma casa em um dos lugares mais loucos do mundo.

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Depois de um começo conturbado trabalhando em uma boate de strip de noite e fazendo entrevistas para bons empregos durante o dia, consegui um dos melhores empregos de Ibiza. E aí virei um rockstar no sentido que sexo vinha fácil e a diversão vinha barato. Todo mundo me conhecia e todo mundo queria ser meu amigo. Minha vida virou uma mistura de Lost com O Lobo de Wall Street. Como se o personagem do Leonardo DiCaprio tivesse sido escolhido pela Ilha para estar no Oceanic 815. Não é a toa que essa é a parte 2 do livro.

Se na 1a parte do livro eu estava em busca de Deus e de mim mesmo, nessa 2a parte eu buscava um final feliz para toda aquela história. E ele veio bem a tempo, ou ao menos eu pensei que tinha vindo.

A temporada acabou antes de acabar em si. A ilha esvaziou. Meus melhores amigos foram embora. E aquela vida de sexo, drogas e música eletrônica não estava mais me satisfazendo. Eu já tinha reduzido o ritmo depois de ter tomado uma facada durante uma briga por causa de uma noite de amor na praia (história engraçada, mas um pouco longa para eu contar aqui). Resolvi parar de vez depois que um amigo foi internado no hospício de Ibiza. Mas o final “e foi ai que eu resolvi parar com a putaria e as drogas” ainda não me soava bom. Muito... simplista... ou chato mesmo... Faltava alguma coisa.

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Foi na noite que eu virei sem teto de novo que começou o final da minha história. Carlos Calhorda, o zelador do meu prédio, trocou minha fechadura porque meu aluguel tinha vencido. Eu estava na rua sem dinheiro e sem documentos, como um indigente. Mas eu vi uma luz no fim do túnel. Do túnel, não! Do meu corredor. Minha vizinha estava em casa, e ela tinha passado as duas últimas noites comigo. Achei que estava na hora de ela retribuir a hospitalidade.

Eu não sabia, mas naquela noite eu iria com minha vizinha para a Flower Power, uma das melhores nights do mundo! E eu também me apaixonaria por ela, o que me faria ir para Londres e consequentemente ter que retornar ao Brasil de uma forma muito escrota.

Quando voltei para o Brasil, estava 10kg abaixo do meu peso ideal, com meu corpo e meu espírito em frangalhos. Demorou muito tempo para que eu pudesse reviver minha história de novo. Precisei me recuperar praticando esportes, tendo encontros casuais divertidos, conhecendo pessoas novas, saindo com meus amigos, jogando vídeo game e passando tempo com minha família. Acho que foi só depois que eu conduzi a Tocha Olímpica em Santa Maria, no RS, que me senti inteiro de novo. E, assim sendo, estava pronto para reviver minha história nas páginas de um livro.

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Lancei GiraMundo no último domingo, na Avenida Paulista (que estava fechada para usufruto do público). Pedi para cada um pagar o preço que sentisse vontade e o resultado foi muito melhor do que eu esperava.

Para quem não pode ir na Paulista no final de semana, subi a versão do livro em e-book pela Amazon que pode ser baixada pelo link https://www.amazon.com.br/dp/B073TJDKK2/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1499881876&sr=8-1&keywords=giramundo . Já quem não gosta de e-books pode me pedir um exemplar diretamente pelo meu Instagram @ststefano.

Escrevi esse livro não para ganhar dinheiro ou ficar famoso. Escrevi porque tinha uma história que queria contar. Que não sei se muita gente vai gostar, mas que queria passar adiante. E também para passar meus conhecimentos da vida de cigano. Agora, se sáporra virar filme ou série do Netflix eu não posso dizer que não vou ficar feliz...

Se você virar meu leitor, só te desejo uma coisa: boa viagem!

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COMENTÁRIOS:

Monique oliveira

Monique oliveira comentou 1 ano atrás

Que história!

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